O REGIME HÍDICO

As florestas autóctones contribuem para a produção de oxigénio e naturalmente neutralizam o CO2 Com a diversidade de espécies que nelas habitam, podem-se encontrar polos de biodiversidade e bancos genéticos. Naturalmente oferecem habitats para a fauna selvagem. 

Também se sabe que estas florestas aumentam a humidade no ar e, como qualquer vegetação, alteram desta forma o microclima local. 

 

Mais especificamente, como é que estas florestas gerem o clima? As árvores, arbustos bem como todas as outras plantas aí presentes, evaporam água. O efeito chama-se evapotranspiração. Ou seja, desde que o ar esteja seco na envolvência das árvores, as árvores evaporam. Se o ar fica com muita humidade, por exemplo em dias de chuva, não se verifica tanta evaporação.

 

Isto significa que a saturação do ar com humidade desempenha um papel importante numa floresta. Mais húmido o ar, menos evaporação existe. Neste caso, qualquer pinga de água que cai ou que deslize pelas árvores, infiltra-se no solo. E sempre que o ar está húmido nesta floresta, mais água fica em excesso, mais água se precipita e se infiltra no solo. 

 

Num ambiente de ar saturado com água, a evaporação diminui drasticamente. O próprio ambiente da floresta cria, com a sua cobertura de plantas, condições para manter a humidade no interior da floresta. As copas fechadas bloqueiam a entrada duma grande parte dos raios do sol. O ambiente sombrio mantém as temperaturas na floresta mais baixas do que na sua envolvente.  Assim, neste ambiente naturalmente mais fresco e mais húmido, a situação do ar saturado com água torna-se um efeito permanente na floresta. Este fenómeno, por sua vez, contribui para criar um regime de excesso de água que mantém o solo húmido.  O ar frio tem menos capacidade em absorver humidade, o que leva à precipitação da água em excesso, que escorre pelas plantas abaixo e infiltra-se no solo. Por isso, a floresta torna-se o habitat ideal para seres vivos que apreciam estes ambientes de ar e solos húmidos, como fungos, musgos, líquenes e cogumelos. Afinal, podemos dizer que a água já não consegue fugir da floresta, fica captada num regime hídrico permanente acircular dentro da própria floresta. A água mantém-se na floresta autóctone num circuito hídrico quase fechado. Desta forma a floresta autóctone contribui para a retenção de água na paisagem e para a renovação do nível freático. 

E o que acontece na floresta quando o tempo fica mais seco? Naturalmente que a floresta evapora mais água. O ar seco tem mais capacidade de absorver humidade. Mais altas as temperaturas, maior será esta capacidade. O ponto de saturação do ar com água fica mais elevado no ar quente do que no ar frio. Ou seja, com tempo seco e temperaturas elevadas, em condições de seca, a floresta emite permanentemente humidade ao meio ambiente. Para conseguir isto, usa a água retida do solo. Ao longo do tempo, o solo fica mais seco porque o efeito da evapotranspiração continua numa forma incontrolada, desde que o ar continue a estar seco e a conseguir absorver humidade. Quanto mais alta é a temperatura, mais forte é este efeito.

 

Quanto mais densa a floresta for, menos grave será o problema. Assim percebe-se bem porque é que, naturalmente, a floresta autóctone num ambiente de clima mediterrânico como Portugal é constituída por espécies de porte menos alto e copa ampla, capaz de criar uma boa cobertura de proteção, contra a secagem, contra agentes de erosão e a respetiva perda de solos e outros impactos negativos.

 

O que acontece, então, em plantações de espécies de porte alta e copa estreita? Em primeiro lugar, o vento pode penetrar melhor porque a própria plantação cria menos barreira física de auto-protecão. O vento pode entrar com mais facilidade e ser responsável pela troca de ar. O vento retira o ar saturado com água e, assim, aumenta desta forma indireta a evapotranspiração das árvores. As árvores têm de novo que trabalhar para humificar o ar. Elas fazem isto incansavelmente todos os dias, com este efeito secando cada vez mais o solo e os respetivos recursos de água armazenado no solo.  Assim, a paisagem, mesmo que seja equipada com estrado arbóreo, perde os seus recursos de água e do solo, entrando num processo de secagem ou desertificação.

 

Neste contexto percebemos que plantações de espécies arbóreas não adequadas podem contribuir fortemente para o efeito de “secagem da paisagem” o que por sua vez expõe a floresta cada vez mais ao perigo de incêndios florestais.

 

Percebemos também que as chamadas “limpezas” da floresta podem ser contra-produtivas. Contra-produtivas porque removem o estrado arbustivo ou herbáceo que protege o solo e ajuda a manter a humidade no mesmo. Contra-produtivas porque reduzem a biomassa na floresta, importante para criar um solo fértil e nutritivo, que as plantas com as suas raízes podem explorar para aumentar a capacidade de retenção e infiltração de água e consequentemente a renovação do nível freático. Contra-produtivas porque estão a contribuir para aumentar a evapotranspiração das árvores. Numa floresta de ambiente mais aberto, o ar pode secar mais do que numa floresta densa que mantém a humidade no local, entre as árvores, dentro da floresta. Assim, as limpezas da floresta, pensadas para contribuir para a sua proteção contra incêndios, tornam-se num agente que acelera o processo de secagem da floresta e em consequência também o da paisagem. E uma paisagem seca, todos nós sabemos disto por experiência vivida, arde mais facilmente do que uma de ambiente húmido.

A floresta autóctone é o manto natural da paisagem que merece toda a nossa atenção e preservação.